Desfazendo Mitos da Amamentação


*Por Mari Nakata

Foto de Renata Cristina

Foto de Renata Cristina

Alimentar o bebê no próprio seio exige doação, dedicação, paciência, segurança e, acima de tudo, confiança da mulher em sua capacidade de nutrir. Além de suprir completamente a necessidade do bebê em seus primeiros meses de vida, o leite materno é rico em substâncias imunoativas, que protegem contra doenças e infecções. Como se esses benefícios não fossem suficientes, o ato de amamentar é um fator importante para reforçar o vínculo afetivo entre mãe e filho e previne, na mulher, doenças como câncer de mama e hipertensão.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) e o Ministério da Saúde são claros em suas recomendações: bebês devem ser alimentados exclusivamente com leite materno durante os seis primeiros meses de vida e, depois desse período, continuar a receber o seio da mãe até completar dois anos ou mais.

Apesar de todos esses fatores positivos, amamentar nem sempre é tarefa fácil. É comum que as primeiras semanas de vida do bebê sejam acompanhadas por medos, insegurança e até mesmo por dor, além de uma enxurrada de palpites e conselhos que, embora bem-intencionados, podem acabar com a confiança da nova mãe em sua capacidade de nutrir.

Por isso, elaboramos este guia, com algumas das afirmações mais comuns durante o período de amamentação e as opiniões de especialistas humanizados e em dia com as mais recentes evidências científicas.

Além disso, vale a pena ter à mão, desde o final da gestação, o contato de profissionais que possam auxiliar se houver qualquer dificuldade na lactação, resolvendo-as, muitas vezes, com medidas simples como um ajuste na pega do bebê na mama ou a mudança de posição para amamentar.

Boa leitura, e muito leite para a família!

  • A mama deve ser preparada antes do nascimento do bebê para evitar fissuras

MITO. A única preparação necessária para o sucesso na lactação é a busca por informação. Aline Belini, fonoaudióloga especializada em amamentação, explica: “O que efetivamente evita fissuras mamilares e ferimentos é a pega adequada. Massagens com bucha, banhos de sol e cremes hidratantes podem agredir a pele sensível do seio. Não há comprovação científica de que essas intervenções previnam ferimentos causados durante a amamentação e, a menos que ajudem a gestante a interessar-se pelo assunto e tornar-se mais confiante em sua capacidade para amamentar, são potencialmente arriscadas.”

Sobre bicos planos e invertidos: Embora ainda seja comum associar o formato dos mamilos a dificuldades na amamentação, o fato de não ter bicos dos seios proeminentes não é relevante para o bebê. Aline afirma que “exercícios de manipulação dos mamilos e o uso de conchas para adequar características anatômicas são desnecessários, pois com a pega adequada, o bebê suga toda a aréola, e não apenas o mamilo”.

Sobre a pega adequada: Aline orienta: é importante observar a posição corporal de mãe e bebê. “A mulher pode ficar com as costas apoiadas, relaxada, e não debruçada sobre a criança, que deve estar alinhada, apoiada no corpo da mãe. A pega adequada compreende boca aberta, envolvendo boa parte da aréola, e nunca apenas o mamilo. Lábios virados para fora e queixo do bebê encostado na mama complementam a posição ideal, na qual o tecido mamário é comprimido entre a língua e o céu da boca e o fluxo de leite é ejetado no terço posterior da cavidade oral.”

  • Se o bebê chora demais, é sinal de que o leite da mãe é fraco ou insuficiente

MITO. Aline Belini, especialista em amamentação, afirma que “a sociedade não está habituada a confiar nas potencialidades e na perfeição do corpo feminino. Assim, existe a tendência a identificar qualquer choro ‘fora do esperado’ como fome e, consequentemente, como ‘defeito’ do alimento produzido pela mãe”.

O pediatra e neonatologista Carlos Correa, o Cacá, relata que quase 40% das mulheres sentem que tem pouco leite, ou leite fraco. Mas, em geral, é mais importante trabalhar a autoestima da mãe, que precisa confiar em sua capacidade de produzir um leite bom e em quantidade suficiente.

Vale lembrar que o volume estomacal do bebê é bastante reduzido, e que o leite materno é de facílima digestão. Assim, ele pode sentir necessidade de mamar quase continuamente. Mas Aline ressalta: “Mesmo nos casos em que a mãe é desnutrida, o leite materno continua sendo o melhor alimento para o bebê. Quem oferece fórmula láctea pode até observar maior intervalo entre as mamadas, o que muitas vezes resulta em mais horas de sono, mas isso é consequência da sobrecarga ao sistema digestivo, e não de um alimento de melhor qualidade.”

  • Bebê que não tem horário para mamar fica mal acostumado

MITO. Dentro do útero os bebês passam o tempo todo em condições muito específicas, sendo alimentados continuamente via placenta, com espaço limitado para movimentar-se, temperatura estável e ruídos característicos. Ao nascerem, as condições ambientais mudam muito e é natural que eles expressem seu desconforto chorando. Isso significa que ele ainda não assimilou a separação do corpo da mãe, e não que está fazendo birra ou manha.

O pediatra Cacá ressalta que o recém-nascido não tem horários e deve se relacionar com a vida de forma rítmica. “O bebê tem urgência em mamar quando tem fome e fica sonolento quando precisa descansar. E o corpo da mãe também dá sinais que devem ser respeitados, como as mamas cheias de leite pedindo para ser esvaziadas pelo filho.”

  • Amamentar durante a gestação prejudica o desenvolvimento do bebê

MITO. Embora muitos acreditem ser necessário realizar o desmame no caso de uma nova gravidez, sob a justificativa de que o feto não se desenvolverá adequadamente, o ginecologista e obstetra Jorge Kuhn discorda: “Já tive oportunidade de acompanhar algumas grávidas que aleitaram sem problemas durante a gestação, e não conheço evidências científicas robustas que contraindiquem a amamentação durante esse período.”

Sobre amamentar gêmeos e trigêmeos: O pediatra Cacá conta que há relatos de aleitamento exclusivo até mesmo de trigêmeos. Certamente a tarefa de amamentar múltiplos requer dedicação e entrega intensas, com uma boa dose de organização e de apoio prático. Aline Belini, especialista em amamentação, sugere, na medida do possível, amamentar duas crianças simultaneamente, contanto que sejam levados em conta o ritmo, as necessidades e a individualidade de cada uma delas. “É importante que a mãe de gêmeos tenha condições de cuidar de sua nutrição, hidratação e relativo descanso, e que possa dedicar seu tempo exclusivamente às crianças, delegando as demais preocupações do cotidiano aos seus apoiadores”.

  • Algumas comidas são proibidas durante o período de amamentação

MITO. Mulheres que amamentam costumam ter receio de consumir alimentos que, acredita-se, causam gases e desconforto ao bebê. A ginecologista e obstetra Ana Thais Vargas, no entanto, discorda: “Restringir alimentos para quem está produzindo alimento não faz o menor sentido. Café, chocolate, chá preto e feijão podem, sim, trazer irritação e causar cólicas ao bebê, mas isso não é regra. Com alguma atenção é possível perceber se aquele bebê, especificamente, reage de forma negativa a alguma substância ingerida pela mãe.”

Sobre o consumo de álcool e tabaco: O Ministério da Saúde aconselha que essas substâncias sejam utilizadas com critério durante o período de lactação, pela possibilidade de alterarem o sabor do leite e reduzirem sua produção. No entanto, a recomendação é para que mães fumantes continuem amamentando, pois os benefícios trazidos pelo leite materno são superiores ao prejuízo causado pelo cigarro. O pediatra Cacá sugere que, antes de consumir alguma substância não habitual, a mãe armazene leite para oferecer ao bebê. “A opção de fumar ou beber deve ser da mulher, que não deve ter seu amor materno classificado com base em suas escolhas”, completa.

  • A produção do leite materno pode parar ou diminuir do dia para a noite

VERDADE. A obstetra Ana Thais Vargas afirma que “a produção de leite pode diminuir de forma repentina, e isso muitas vezes tem relação com o estresse materno, com alguma alteração nos níveis hormonais ou é resposta à introdução de medicamentos como antibióticos e anticoncepcionais.”

Cris Toledano, psicóloga, completa: “Perturbações de ordem psicológica, como tristeza, ansiedade e cansaço extremo (além do daquele já esperado, causado pelas mudanças vividas com a chegada do bebê) podem sim influenciar tanto a produção do leite quanto sua ejeção. Situações causadoras de estresse produzem adrenalina, que inibem a ação da prolactina, hormônio responsável pela produção do leite, e a secreção de outro hormônio, a ocitocina, responsável pelo reflexo de ejeção.”

Para Cris, o sucesso na amamentação exige tranquilidade para que a mulher possa ter foco nela e em seu bebê. O suporte da família e de amigos que possam suprir, de maneira prática, suas necessidades físicas e emocionais é indispensável para criar um ambiente sereno e favorável. “A mãe precisa estar alimentada para alimentar. Se falta a ela, falta ao bebê.”

E, no caso de dificuldade, Ana Thais recomenda nunca deixar de amamentar, pois a falta de estímulo vai diminuir ainda mais a produção de leite.

  • Cirurgias plásticas nas mamas dificultam a amamentação

PODE ACONTECER. De acordo com o pediatra Cacá, a cirurgia envolve um processo de cicatrização pessoal, impossível de ser previsto e que pode influenciar na produção e na ejeção do leite. Jorge Kuhn, obstetra, completa, dizendo que os casos de redução de mama costumam causar mais dificuldades para amamentar. Mas o que mais atrapalha, segundo Cacá, é a falta de confiança. “A amamentação passa pela autoestima da mulher, que precisa acreditar em sua capacidade de produzir um bom leite para seu bebê.”

  • Não se deve tingir os cabelos durante o período de amamentação

MITO. A mulher não precisa deixar a vaidade de lado devido à lactação, contanto que tenha alguma cautela com relação aos produtos utilizados nos cabelos. Ana Thais Vargas, obstetra, explica: “Fórmulas com formol ficam terminantemente proibidas, pois fazem mal não só para o bebê, mas também para a mãe. Tinturas que contenham chumbo em sua composição também estão vetadas. Levando esses cuidados em conta, os tratamentos capilares estão liberados.”

  • Mulheres que amamentam não devem fazer tatuagens

MITO. Se bater uma vontade repentina de fazer aquela tattoo que você vem ensaiando há tempos, não há necessidade de aguardar o desmame da criança para concretizá-la. De acordo com a obstetra Ana Thais Vargas, “a área dos seios e dos mamilos deve ser evitada. O restante do corpo pode ser tatuado sem limitação”.

  • Quando a mãe volta ao trabalho, é necessário complementar a amamentação com fórmulas lácteas

MITO. Embora o consumo do leite tenha um forte apelo cultural, a nutricionista Carla Caratin explica que, nutricionalmente, não se trata de um alimento essencial. “É possível oferecer todas as substâncias necessárias à criança por meio de uma alimentação saudável e colorida ao longo do dia. Se, no retorno ao trabalho, a mãe não consegue ordenhar leite para que seja oferecido durante sua ausência, é melhor manter apenas as frutas, a papinha e, claro, água em abundância, e oferecer o peito em livre demanda quando estiver com o bebê – pela manhã, à noite e de madrugada.”

Se o período da licença-maternidade for inferior aos seis meses recomendados para amamentação exclusiva, Carla recomenda antecipar o início da introdução alimentar para que o contato com o leite de vaca, que é a base da maioria das fórmulas lácteas, seja adiado para depois do primeiro ano de vida.

Sobre ordenha, armazenamento e aquecimento do leite materno: Para a retirada do leite, a especialista em amamentação Aline Belini recomenda lavagem cuidadosa das mãos e uso de touca e máscara, além de evitar a cozinha e o banheiro. A ordenha pode ser feita de forma manual ou com a ajuda de bomba elétrica. E atenção: aqueles modelos antigos de bombas manuais em forma de buzina são contraindicados, pois são de difícil higienização. “Manter consigo uma foto do bebê ou algum item que preserve o cheirinho dele, como uma manta ou roupinha, favorecem a ejeção do leite.” Com a técnica correta, a quantidade obtida aumenta com o passar dos dias.

O leite deve ser acondicionado, em frascos de vidro com tampa de plástico esterilizados, por até 12 horas na parte mais fria da geladeira ou até 15 dias no freezer, sempre em recipientes datados. O descongelamento e aquecimento devem ser feitos em banho-maria e o leite não deve ser fervido, para não perder suas propriedades. E, importante: se o bebê não consumir todo o leite imediatamente, a quantidade que sobrou deve ser descartada.

  • Bebê que se habituou à mamadeira perde o interesse pelo peito

PODE ACONTECER. É verdade que boa parte dos bebês expostos a bicos artificiais, como mamadeiras e chupetas, apresenta situações como pega inadequada, ganho de peso aquém do esperado, amamentação exclusiva por tempo menor que o ideal (seis meses) e desmame precoce. Isso acontece pela chamada confusão de bicos, causada pelas diferenças de formato, temperatura, consistência e odor, e pelo fato de que alimentar-se na mamadeira, se comparado a mamar no seio, exige muito menos esforço do bebê. Sendo assim, é necessário pesar muito bem os prós e contras antes de oferecer algo além do seio materno à criança, especialmente nos primeiros meses de vida. Aline Belini, especialista em amamentação, frisa que deve-se levar em conta que, “nas primeiras semanas de vida, o bebê tem um reflexo de sucção quase contínuo que pode ser estressado pelo uso da chupeta, não nutritiva, e interferir na qualidade das mamadas e, consequentemente, impactar na quantidade de leite produzida pela mãe”. Isso ocorre porque a produção acontece de acordo com a quantidade consumida pelo bebê.

Aline completa: “Além disso, o hábito de receber, pela mamadeira, um fluxo de leite mais abundante pode deixar o bebê irritado ao mamar no peito.”

Sobre relactação: Ainda que o bebê tenha sido apresentado à chupeta e à mamadeira e, por isso, esteja se desinteressando pelo peito, não perca a esperança. Existem recursos para auxiliar o aumento da produção de leite, prejudicada pela pouca demanda. Na relactação, explica Aline, acopla-se à mama uma sonda ligada ao complemento lácteo de forma que, ao alimentar-se, o bebê sugue o seio e estimule o ciclo neurológico e hormonal necessário à produção do leite. Aos poucos, com carinho e persistência, diminui-se a oferta de fórmula artificial para que ele possa usufruir dos benefícios do leite materno.

  • Depois do sexto mês o leite materno deixa de ter valor nutricional para o bebê

MITO. O leite materno é produzido especialmente para alimentar o bebê e sua coloração, densidade e sabor mudam ao longo do período de amamentação, sem deixar de fornecer a quantidade adequada de nutrientes. Carla Caratin, nutricionista, explica: “Muito se fala sobre o leite materno ‘virar água’ depois de seis meses ou um ano. No entanto, independente da idade da criança o alimento continua sendo uma ótima fonte de nutrientes, principalmente proteína, ferro e vitamina A. Além disso, não devemos desconsiderar a importância do fortalecimento do vínculo entre mãe e bebê para o crescimento e desenvolvimento da criança.”

  • Depois da introdução alimentar o leite materno prejudica a absorção de ferro

MITO. O aproveitamento do ferro pelo organismo depende da biodisponibilidade (grau de absorção) do nutriente e de substâncias que podem aumentá-la (como a vitamina C) ou diminuí-la (como o cálcio do leite de vaca). De acordo com a nutricionista Carla Caratin, “o leite materno apresenta ferro de alta disponibilidade e, por ser ligeiramente mais ácido que o de vaca, não interfere na absorção dos nutrientes de outros alimentos. Considerado fator protetor contra a deficiência de ferro e, consequentemente, contra a anemia, o leite da mãe pode ser oferecido à criança antes e depois das refeições e deve ser considerado o principal alimento durante todo o primeiro ano de vida”.