Famílias fora da caixa


Por Mari Nakata,

Família, de acordo com a primeira definição do dicionário Michaelis, é o “conjunto de pessoas, em geral ligadas por laços de parentesco, que vivem sob o mesmo teto, particularmente o pai, a mãe e os filhos”. Dentro dessa definição o pai é, tradicionalmente, o responsável por prover o lar financeiramente, enquanto a mãe cuida das crianças, da casa e da comida.

Mas é cada vez mais comum encontrar dinâmicas que divergem dessa convenção. Núcleos compostos de dois homens, duas mulheres, homem e mulher onde a esposa tem a principal fonte de renda, solteiros com ou sem filhos e tantas outras configurações que poderiam deixar nossos avós de cabelos em pé hoje são vistas com naturalidade por uma parcela significativa da população.

A psicóloga Cristina Toledano acredita que estamos vivendo um período de transição e que, embora os mais conservadores enxerguem esses novos modelos com reserva, leis como a que permite aos casais homoafetivos os mesmos direitos dos casais heterossexuais são indicativos de que a sociedade está mudando a forma de olhar para o (nem tão) novo. “A função da família é promover o senso de pertencimento e prover o crescimento do indivíduo. Nela o importante é que os papeis sejam exercidos, independente de quem cumpra a função”, afirma Cristina.

Acompanhe, a seguir, quatro histórias nas quais o formato convencional cedeu seu lugar a uma maneira diferente de enxergar e viver o núcleo familiar.

Foto de Carol Zia

Carla Capuano e Clara Liz – Foto de Carol Zia

Duas mães e um bebê

Sarah* e Luisa* sempre sonharam com a maternidade. Depois de um ano de namoro e seis vivendo juntas, decidiram oficializar o registro de união estável, já pensando em facilitar um possível processo de adoção. E em outubro de 2012, dois meses depois do casamento homoafetivo passar a ser possível em São Paulo, realizaram também a união civil.

Embora tantos passos já tivessem sido tomados, a opção pela adoção ainda não havia sido feita. “No início, pensei que a questão gestacional fosse imprescindível para a criação do vínculo entre mãe e filho. Mas Luisa e eu fomos estudando e, com o passar do tempo, uma possível fertilização in vitro perdeu o sentido, já que de qualquer maneira a criança carregaria a carga genética de apenas uma de nós. Além disso, passamos a enxergar que ser mãe não tem a ver só com DNA e sim com a convivência e o dia a dia. Significa se envolver com uma disposição de amar”, diz Sarah.

Tomada a decisão, era hora de começar a juntar os documentos necessários para entrar na fila de adoção. “Coincidentemente”, conta Sarah, “entregamos os papeis no dia do nascimento do nosso filho.” Era hora, então, do que pode ser chamado de período de gestação. A casa começou a ser adaptada para receber uma criança. “Os amigos diziam estávamos sendo precipitadas, já que a espera seria longa. Mas preparamos nosso ninho e deixamos um quarto vazio, onde mentalizávamos a chegada do bebê”.

Seis meses depois, o tão esperado aconteceu: Uma ligação da assistente social, dizendo que Sarah e Luisa estavam finalmente na fila de adoção. Mas não era só isso. Havia uma criança aguardando por um lar. Sarah explica a agilidade: “Eram 77 casais na nossa frente, mas todos queriam meninas brancas, com até seis meses de vida. O fato de termos deixado abertos campos como sexo e cor da pele permitiu que nosso filho fosse encontrado em apenas um dia”.

Quando puderam, finalmente, conhecer o bebê, a conexão foi imediata. “Íamos visitá-lo no abrigo onde ele vivia. Isso durou 10 dias, que para nós foram de muita angústia, pois só queríamos que ele fosse morar conosco logo. Quando pudemos, finalmente, levá-lo para casa, nos demos conta de que praticamente não havíamos comido nesse período tamanha a ansiedade”, conta Sarah.

O momento era de adaptação a uma nova rotina. Houve dificuldade para decidir quem tiraria a licença maternidade, já que apenas uma das mães poderia receber o benefício e ambas achavam o período importantíssimo para o fortalecimento do vínculo. “Nós duas somos mães e queríamos estar com ele nesse momento de transição e adaptação a um universo novo”, diz Sarah. “No final, decidimos que a Luisa ficaria em casa, já que teria direito a um período maior de afastamento do trabalho. Felizmente, consegui usar minhas férias e folgas acumuladas e me juntei a eles durante dois meses e meio.”

“Hoje, seis meses depois da adoção, olhamos as fotos de quando nosso bebê chegou em casa e vemos que a expressão dele mudou. Os olhinhos de medo deram lugar aos sorrisos”. Em tempo: o nome do bebê, Miguel* desde o nascimento, é o mesmo que teria sido escolhido por Sarah e Luisa no caso de receberem um menino.

Sarah, 37 e Luisa, 36 são psicólogas e mãe de Miguel, de um aninho.

*Os nomes foram mudados para não interferir na conclusão do processo de adoção.

Nós, vós, ele

Andrea, Cacá e Ivonei se conhecem há muitos anos, mais do que conseguem se lembrar. Há cerca de cinco decidiram viver juntos “por afinidade, para cuidar uns dos outros”, diz Cacá. Desse agrupamento brotou o casamento de Andrea e Ivonei. Mas a união do casal não separou o grupo de amigos, que continua dividindo o teto, agora também com o pequeno José Carlos, recém chegado à família “de uma gravidez não planejada, mas muito esperada e desejada”, como Cacá faz questão de frisar, em um nascimento assistido por ele, que é pediatra.

A parceria nos cuidados com a casa, uns com os outros e, agora, com o bebê vai além da vida pessoal. A família compartilha também o mesmo espaço de trabalho, onde exercem funções diferentes.

“É uma relação familiar, de amor e afeto”, diz Cacá. Sobre seu vínculo com José Carlos ele responde, sem pestanejar: “Uma criança desperta sentimentos automaticamente. O carinho vem de lá para cá, e é impossível ficar indiferente”.

Carlos Augusto Correa, 50, é médico pediatra e vive com Andrea, 43, fonoaudióloga, Ivonei, 37, encarregado de serviços gerais e com José Carlos, nascido no final de abril.

Pai que cuida

Depois de alguns anos de namoro e de toda uma vida na Selva de Pedras, Daisy e Willian tomaram a contramão de todos aqueles que sonham com o dia a dia na cidade grande e, há meia década, rumaram para a roça. “Queremos levar uma vida mais simples, com menos dinheiro, menos gente e menos problemas”, diz Willian.

Veganos, plantam boa parte do próprio alimento, produzem em casa o que for possível, como o pão de fermentação natural e evitam comprar produtos e insumos que carreguem o peso de grandes corporações em nome de um modelo mais consciente de consumo.

Há oito meses essa decisão se mostrou ainda mais acertada com a chegada de Bento, primeiro filho do casal. “Aqui há menos interferências. Optamos por uma alimentação saudável e fazer nossa comida permite termos um controle maior sobre o que faz parte da nossa mesa”, exemplifica Willian.

Com o final da licença maternidade de Daisy, que é funcionária pública, ficou decidido que Willian se dedicaria por completo aos cuidados com o bebê e a família. “Ela é concursada, tem estabilidade. Como sou autônomo, achamos mais sensato que eu ficasse em casa.” Adeptos de uma criação mais consciente e reflexiva, essa foi a maneira encontrada para que Bento tenha um dos pais presente em tempo integral.

Há um mês na função de pai-cuidador, Willian já está habituado à nova rotina. “Só é difícil quando estamos sozinhos e o Bento quer mamar. Aí não há colo que baste. O restante, tiro de letra. Amo esse menino mais que tudo, ele é minha vida”, derrete-se.

Willian Germano, 37, é músico e ator. Casado com Daisy, 34, assistente social e pai de Bento, de oito meses

Tal mãe, tal filha

A vontade de ser mãe fez com que a vida de Carla mudasse completamente. A decisão de pedir demissão de um emprego estável depois de 15 anos trabalhando em multinacionais, a volta à cidade natal, Santo André, e a inspiração para empreender vieram juntas, sob uma única motivação: Clara Liz.

A gestação, desejada e planejada em comum acordo com um amigo, foi uma opção pela maternidade solo. “Não éramos um casal. Decidimos que eu seria a mãe e ele, o pai. Mas, embora Liz o chame de pai, eles têm pouco contato. Nossa família somos nós duas.”

O vínculo entre mãe e filha é forte e perceptível desde o primeiro olhar, e a parceria se estende até a vida profissional. A pequena acompanha Carla ao trabalho, uma casinha acolhedora com suporte e atividade para gestantes e famílias, e recebe os frequentadores com um grande sorriso, além de conhecer todos pelo nome.

Para dar conta da criação autônoma da filha, Carla tem uma boa rede de apoio. Seus pais e seu irmão são muito presentes e há ainda a ajuda de uma babá. “Optei por não colocá-la na escola tão cedo, e esse suporte é essencial para que eu consiga trabalhar, ainda que em horários improváveis, como madrugadas e finais de semana”.

Mais do que amor e transformação a maternidade significa, para Carla, uma imensa fonte de inspiração. Sentindo que chegou a hora de Liz frequentar a escola e descontente com as opções na região, a mãe prepara uma nova empreitada: um espaço para receber a filha e outras crianças do jeitinho que ela sempre sonhou. “É um trabalho mais que prazeroso, porque é feito pensando na minha filha. Por ela, faço qualquer coisa”.

Carla Capuano, 38, psicóloga e administradora da Casita e mãe de Clara Liz, 3