Férias maternas – porque ser mãe também é trabalho


 *Por Mari Nakata

Secar os cabelos, fazer uma refeição inteirinha sem levantar da cadeira, usar o banheiro de porta fechada, folhear uma revista, ir ao cinema, sair para beber sem se importar com o dia seguinte, dormir uma noite inteira, namorar, desfrutar de alguns minutos de silêncio… Daria para encher algumas páginas com atividades que podem parecer simples para a maioria – mas não para uma mãe de filhos pequenos.

Durante os primeiros anos a criança exige atenção em tempo integral. A curiosidade e o alto nível de energia, associados a uma completa falta de noção do perigo, podem resultar em uma rotina exaustiva para a mãe, especialmente nos dias atuais, em que as redes de apoio são cada vez mais raras. A famosa culpa materna, reforçada pelo discurso de que a mulher que deseja passar um tempo longe dos filhos não os ama como deveria, é outro fator que mina as possibilidades de encontrar, entre as fraldas, mamadas, brincadeiras, casa limpa e refeições quentinhas, um tempo para si.

Entretanto, é bom lembrar que uma relação saudável – inclusive entre mãe e filho – é aquela que dá lugar à individualidade de todas as partes envolvidas. A lógica parece simples, mas não é: se a mãe não tem suas necessidades satisfeitas, o bebê não terá as dele satisfeitas plenamente também. A psicóloga Cris Toledano reforça: “A mulher não deve banalizar suas necessidades, sejam elas quais forem, pois uma mãe que não cuida de si e de seus limites não vai cuidar saudavelmente de sua criança.”

Irritação, fadiga ou tristeza sem razão aparente podem ser indícios de que sua energia está chegando ao fim. Cris orienta: “O ideal é prevenir essa exaustão antes que ela se manifeste fisicamente e tentar construir, na medida do possível, um ritmo diário onde haja tempo para cuidar do bebê e também de si.” Em casos graves, a ausência desse autocuidado pode gerar distúrbios psicológicos como depressão, problemas na amamentação e nas relações. A psicóloga reforça: “Doenças sempre são sinais de abandono de si.”

Ainda que não seja possível passar a semana em uma pousada ou spa, ou mesmo ausentar-se por muitas horas seguidas durante o dia, tente encontrar espaço e ajuda para fazer algo que você gostava antes da maternidade: uma aula de dança, uma caminhada solitária pelo parque, algumas horinhas sozinha em casa para ver TV, cozinhar, dormir… (alô pais e avós, que tal um passeio sem pressa na pracinha com as crianças?)

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Reserve o direito de fazer esse carinho em si mesma, sem sentir-se mal por isso. A psicopedagoga Renata Palombo reforça: “Se a mãe deseja afastar-se por um tempo, sejam dias ou horas, por estar sentindo-se esgotada, cansada, desorganizada emocionalmente, que o faça sem culpa. Mais vale uma mãe que se afastou um pouco para reorganizar-se suas emoções e que poderá dar ao filho tudo que ele necessita, do que uma que nunca se afasta, porém vive estressada, ansiosa e perturbada, transmitindo à criança somente vibrações negativas.”

Se você nunca ficou longe do filhote, Renata orienta: “Comece ausentando-se por pouco tempo. Inicialmente se afaste, mas esteja em lugares próximos como o mercado, a feira, o salão de cabeleireiro do bairro… Se for preciso ir para lugares distantes, é interessante viabilizar um cuidador que possa acompanhá-los e permanecer por perto. Isso deixará a mãe mais segura e menos culpada.Consequentemente a criança também se sentirá mais segura e estável.”

Não sair escondida e nunca mentir ou inventar histórias ajudam a transmitir segurança e confiança. “Não dê presentes como contrapeso da ausência, pois a criança pode fazer uma interpretação de que, sempre que algo não sair como ela deseja, merece ser recompensada. É muito melhor dedicar tempo brincando juntos do que tentar equilibrar com bens materiais”, completa Renata.

Conheça, a seguir, duas histórias bem diferentes. A de H.T., que durante a infância dos filhos teve que abdicar totalmente de sua individualidade e, 20 anos depois, conta quais foram as consequências disso e a de Carla, que finalmente decidiu dedicar um final de semana inteirinho para si.

Dedicação sem intervalos

Sou advogada e quando engravidei do meu primeiro filho, há mais de 20 anos, havia acabado de montar meu escritório. Como profissional liberal, minha rotina de trabalho mudou radicalmente. Para poder trabalhar, eu precisava arrumar tudo em casa pela manhã; ia para a casa da minha mãe em torno das 10 horas e ficava com meu filho até a hora do almoço. Só depois eu podia ir para o escritório e, ainda assim, muitas vezes meu pai me telefonava dizendo que o bebê havia acordado e que eu deveria ir cuidar dele.

Era bem diferente do que eu via acontecer quando nasceram meus sobrinhos, os filhos das primas, das vizinhas… as mães recentes estavam sempre acompanhadas por suas mães, sogras, irmãs, primas, amigas. Eu não tinha ajuda sequer do pai do meu filho, que era meu companheiro na época. Ele reclamava até por ter que me ajudar a levantar para amamentar durante a noite, já que tive uma distensão muscular durante o parto e não conseguia sair da cama sozinha.

Quando compreendi que, mesmo tendo um companheiro, eu estava sozinha para criar o bebê, tive uma depressão pós-parto intensa, agravada pelo fato de que não podia ter um mínimo de vida própria. Quando meu filho tinha cerca de um ano e meio de idade desenvolvi transtorno do pânico, e só então meu companheiro concordou em ter uma empregada. Antes disso ele alegava que não queria “gente estranha” na casa.

Quatro anos depois, no nascimento do segundo bebê, saí da maternidade, almocei, cuidei dele e fui direto para o computador, pois tinha que fazer uma petição e não podia perder o prazo. Cuidava dos meninos em tempo integral, trabalhava quando eles dormiam e não podia me desligar nem por um momento. Meu então companheiro não aceitava colocar grades nas janelas do apartamento, dizendo que “pareceria uma prisão”. E esse apartamento virou, de fato, uma prisão para mim, pois eu precisava estar constantemente atenta para que meus filhos não corressem nenhum risco. Acabei aprendendo a tingir o cabelo e fazer as unhas sozinha, para não ter que deixá-los.

Durante a infância dos meninos, nunca tive um momento meu. Gostaria de ter tido mais tempo para dormir e descansar, para não ter ficado doente. Sofro até hoje com as sequelas do transtorno do pânico, mas há mais de quinze anos não tenho crises. Em contrapartida, minha relação com eles é muito próxima. Tudo que eles precisavam saber quando chegaram à puberdade, foi a mim que perguntaram. Nossa relação é de confiança e participação, e eu devo tudo isso às dificuldades por que passei desde quando eles eram pequenos. Meu amadurecimento serviu como exemplo para eles.

Motivada pela minha história, hoje milito em favor de mulheres que sofrem todo tipo de agressão, especialmente abandono material e moral e que sofrem humilhação. E começo a sentir a síndrome do ninho vazio, pois meu filho mais velho foi estudar em outra cidade. Sei que o mesmo acontecerá ao caçula, mas tenho consciência de que isso é parte da vida. E acho que, motivados pela nossa relação, eles serão ótimos pais, quando for o momento deles. E não tenho dúvidas de que terão um lugar para mim em suas vidas – nem que seja pra cuidar dos meus netos!

H.T. tem dois filhos, de 21 e 17 anos, e mesmo tendo sido casada, foi mãe e pai dos meninos. A seu pedido, o nome foi mantido em sigilo

Silêncio entre o mar e a montanha

Desde que me tornei mãe tive a impressão de que, ao nos identificarmos com o pacote da criação com apego, escolher estar longe da cria, mesmo que por pouco tempo, soa como egoísmo. Mas de repente dei-me conta de que não está escrito em lugar nenhum que ter a Liz me impede de fazer coisas que antes me davam prazer, sozinha. Até porque esse discurso de “não posso mais” prejudica qualquer tipo de relação, inclusive entre mãe e filha.

Então inspirei-me em uma frase do Cacá, nosso pediatra, que sempre diz que a maternidade é como estar em um avião com pouco oxigênio em uma turbulência: devemos colocar a máscara primeiro em nós, para termos força e energia para cuidar dos filhos. E depois de dois anos e 8 meses de maternagem sem intervalos, dei-me de presente o direito de desfrutar de 30 horas só para mim.

Deixei minha filha aos cuidados da babá e do meu pai. Reservei, em uma pousada na praia, um quarto em cima do morro, com vista para o mar, e planejei apenas uma sessão de massagem relaxante. Todas as outras horas estariam disponíveis para o universo, sob responsabilidade do acaso. Na mochila, chinelo, canga, biquíni, incenso e paz no coração. Parei para abastecer o carro, vi um livro e comprei-o: Nada Ocorre por Acaso, da escritora Áurea Luz.

Durante minhas mini-férias, desfrutei de tudo como se fosse a primeira vez. Fazer uma refeição com calma, acordar na hora que tive vontade, tomar sol apreciando o som das ondas são pequenos prazeres dos quais só me dei conta quando deixaram de fazer parte da minha vida. Ser mulher, dormir, dançar, tomar banho em silêncio… ah, o silêncio…

Não estou dizendo que viajar com filhos seja chato, muito pelo contrário. Liz e eu saímos bastante, mesmo que em viagens curtas, e aproveitamos intensamente esses instantes fora da nossa rotina. Mas, mesmo antes de engravidar, sempre precisei de um tempo comigo mesma e agora, com a maternidade, faz falta um pouco de liberdade para ser, por algum tempo, quem sempre fui.

Na volta, bem que gostaria de um par de horas a mais (risos!). Mas quando cheguei em casa, foi amor total! Voltei cheia de gás, sentindo que a saudade fez bem para mim, para ela e, principalmente, para a nossa relação. Então tive convicção do quão importantes são esses retiros. Porque ser mãe é abdicar um pouco de ser quem você é. E recuperar isso, mesmo que por algum tempo, me fez um bem danado. Sem culpa nenhuma!

O livro? 30 horas não foram suficientes para terminá-lo, mas conta a história de um espírito que desencarna e demora a aceitar sua nova condição. A parte que li, relacionei perfeitamente com o que estou vivendo: a maternidade como processo de aceitação e evolução de uma nova fase da vida, repleta de desafios , aprendizado e emoções.

Carla Capuano é mãe de Clara Liz, 3 anos, e descobriu que a maternidade não pode ser impedimento para os momentos de introspecção