FICÇÃO E REALIDADE


Às vésperas do Dia Internacional da Mulher, a ficção se mostra ainda real: na telenovela global Lado a Lado, de Cláudia Lage, a personagem Laura (Marjorie Estiano) é internada num hospício por sua mãe, Constância (Patrícia Pillar), para não denunciar um esquema de corrupção desta.
Puro dramalhão mexicano, cujo único intuito é fazer os telespectadores verterem lágrimas aos borbotões e se apiedarem da pobrezinha injustiçada? Não. Infelizmente, não.

A situação da personagem se baseia em dados reais levantados por Luciane Reis, auxiliar da autora da novela. Segundo a pesquisadora, era uma prática muito comum desde o século XIX ao início (apenas no início?) do século XX. Não era necessária rebeldia extrema ou uma efetiva doença mental: bastava a mulher querer estudar, ou se recusar a ter filhos, desejar trabalhar fora, exercer uma profissão considerada “masculina”. Na maioria dos casos pesquisados, as mulheres internadas eram estudantes, ou cursavam o Normal (atual Magistério), ou já lecionavam – em suma, possuíam instrução acima do comum em relação às suas contemporâneas.

Trata-se de uma novela de época; por isso, presumir-se-ia que essas arbitrariedades estivessem limitadas no tempo, mas não é assim. Ainda hoje, no nosso mundo que se intitula moderno, a repressão às mulheres continua existindo sob os auspícios das mais variadas – tanto quanto acintosas – justificativas. Ora a religião, ora o “bem-estar da família”, ora a “ordem pública”, ou simplesmente o mais deslavado e descarado preconceito.

Lado a Lado não inova no assunto. Giacomo Puccini, em seu Il Trittico – que junta três óperas de apenas um ato cada uma-, em “Suor Angelica” (“Sóror Angélica”) narra a história de uma jovem de família aristocrática, que tem um filho fora do casamento – pecado mortal para uma mulher de sua condição e para a sociedade da época. Foi internada num convento para esconder sua “vergonha”.

Apesar de a personagem ser fictícia, também se baseia em situações concretas.

Camille Claudel, retratada no filme homônimo dirigido por Bruno Nuytten, com roteiro de Reine-Marie Paris, tendo a personagem-título interpretada por Isabelle Adjani, foi uma escultora talentosa, inteligente, determinada e de forte personalidade, que se envolveu com seu mestre, Auguste Rodin, então casado. Foi um escândalo para a família. Após o rompimento com Rodin, Camille ficou deprimida e foi internada num hospício por seu irmão, Paul Claudel. De fato, Camille se tornou cada vez mais paranoica, mas a doença se deveu aos obstáculos e à rejeição que a artista encontrou dentro de sua própria família e na sociedade da época.

Todavia, nem é necessário retroceder tanto no tempo para constatar as atrocidades cometidas contra mulheres que desejavam ir além dos limites impostos por suas famílias e outros grupos sociais – ou mesmo apenas viver suas vidas como bem lhes aprouvesse. Tragicamente, os casos não pertencem ao terreno da ficção, embora pareçam verdadeiros filmes de horror.

No mundo islâmico, meninas sofrem mutilação genital e são oferecidas em casamento antes dos dez anos de idade; mulheres são queimadas vivas se tiverem relações sexuais fora do casamento; jovens que rejeitam noivos ou se recusam a manter relações sexuais são queimadas e desfiguradas com ácido sulfúrico; mulheres que desejam o divórcio têm o mesmo destino; mulheres suspeitas de adultério (basta a suspeita) são apedrejadas até a morte.

Mutilação genital de meninas e açoitamento de mulheres suspeitas de adultério também ocorrem na África; queimaduras por ácido se veem igualmente na China.

Em vários países, inclusive os considerados mais adiantados, os culpados de estupro não são punidos com a necessária severidade, e as vítimas muitas vezes são marginalizadas, muitas vezes são julgadas como “muito provocantes”, como se tivessem “atraído” demais a atenção de seus algozes.

Há poucos meses, a paquistanesa Malala Yousafzai, atualmente com quinze anos, foi vítima de um atentado cometido por integrantes do Talibã, cuja motivação foi o “crime” de lutar pelo direito de suas conterrâneas à educação. Ela sobreviveu, mas com sequelas: seu crânio precisou ser reconstruído, e seu rosto está desfigurado. Ela já asseverou que nada a fará abandonar a batalha. O Talibã, por seu turno, ainda pretende eliminá-la da face da Terra, como exemplo para outras jovens “rebeldes”.

Nos nossos dias, se internações oriundas de falsas acusações de transtornos mentais passaram exclusivamente para o plano ficcional – ao menos assim esperamos-, ainda existem outras formas de tortura e agressão, tanto físicas como psicológicas. A Lei Maria da Penha está aí para provar isso.

Hoje, podemos usar as roupas que nos convêm, seguir nossas vocações e inclinações, tanto sexuais como profissionais, decidir se queremos nos casar ou não, ter filhos ou não – enfim, temos a LIBERDADE de optar. Entretanto, não devemos jamais nos esquecer das nossas irmãs: as de antes, que lutaram pela igualdade de direitos; e as de agora, que ainda não os conquistaram em sua plenitude.

Therezinha Hernandes, ex-professora de Língua Portuguesa e Literatura, advogada especialista em Direito Civil e Direito Processual Civil, com ênfase aos Direitos da Personalidade, saúde, educação e relações de consumo, pacifista por natureza, ativista por princípio na defesa dos direitos das mulheres e, acima de tudo, mãe feliz de Lorenzo (19) e Giuliano (16).