Gestar, parir e criar. Assunto de homem, sim senhor!


 

*Por Mari Nakata

Ninguém discorda de que gestação, parto e amamentação sejam assuntos prioritariamente femininos. Afinal, é no corpo da mulher que o bebê se materializa; é com a força da natureza Feminina que ele chega ao mundo e é no seio da mãe que ele se alimenta por meses – ou até anos – a fio. Mas enganam-se aqueles que pensam no pai como mero coadjuvante na história dessa vida que se forma. O interesse pelo tema pode fazer com que o homem se torne, se não o protagonista, um personagem importante para o enredo, ao lado da mãe e do bebê. É bem verdade que a maioria deles precisa de um empurrãozinho extra para envolver-se nas decisões referentes à gravidez, ao nascimento e à criação do bebê, e a psicóloga Cris Toledano explica o porquê: “A cultura patriarcal ainda é muito presente em nosso meio, e com base nela o homem não se autoriza a participar daquilo que ainda é, por muitos, considerado como sendo do âmbito exclusivo da mulher. Porém, se formos mais a fundo, esse desinteresse pode estar encobrindo medos e fragilidades, e topar a aventura de participar e se informar mais ativamente implica em colocar-se diante deles, o que pode ser bastante difícil para alguns homens.” Ricardo Alexandre Oliveira, 36, diretor de TI, pai de Caio, hoje com dois anos e meio e escritor do recém lançado Paternidade conta: “Quando decidimos engravidar, o que eu queria era apenas um filho saudável, e via o parto como um pedaço de um processo maior. Acharia ótimo se o bebê nascesse de forma natural, mas não tinha noção da batalha que precisaria ser travada para tornar isso uma realidade. Confesso que quando a Carol (esposa) chegou com DVDs de nascimentos e me chamou para assistir, não achei a menor graça. Mas, pouco a pouco, fui comprando a ideia e virando um guardião do parto”. A esposa de Ricardo, Carol Moreira Oliveira, 32, dedicada à criação do filho, conta que o apoio não foi imediato: “Briguei com tudo e com todos para ter um parto digno e conseguir amamentar e o Ricardo muitas vezes desafiou as minhas convicções. Mas no final das contas eu consegui parir, amamentar, criar com apego etc. porque ele sempre esteve aberto a conversar e entender os meus motivos, e nunca foi uma pessoa fechada a novas formas de criação.”

A nutricionista Carla Caratin, 38 e seu marido, o educador físico Telemaco Martins, 38, pais de Valentim, 4 e de Joaquim, 1, tinham preferência pelo parto respeitoso desde o início da gestação do primeiro filho. Telemaco conta que eles frequentaram, juntos, reuniões de apoio ao parto humanizado, conversaram muito e leram sobre o assunto. “Caminhávamos e praticávamos yoga, e eu gostava de massagear a barriga para interagir com meus meninos.” Mas mesmo com todo o preparo, Valentim nasceu por meio de uma cesárea indesejada. No entanto, ao invés de desanimá-los a experiência serviu para que o casal se informasse ainda mais, durante os três anos que antecederam a chegada do segundo filho, em 2013. Carla diz que, por conta do trabalho, Telemaco não pôde acompanhá-la aos grupos na segunda gestação. “Mas ele sempre esteve presente nas aulas de yoga e em longas conversas com a Amanda, nossa doula querida”, diz ela. E a dedicação não foi em vão. Joaquim chegou no momento dele, em um parto humanizado e respeitoso, com quase 41 semanas de gestação. Se a dedicação valeu a pena? “Nosso primeiro parto foi desgastante e tenso e senti paz e muita alegria quando nós três finalmente chegamos ao quarto da maternidade. No segundo, por outro lado, pudemos curtir o trabalho de parto. Vi minha esposa se transformar e se descobrir horas antes do Joaquim nascer, o que foi muito especial”, compara Telemaco. Para Carla, o apoio do marido foi fundamental. Ela exemplifica: “Nas últimas semanas da gestação descobrimos que Joaquim estava pélvico (ou “sentado”, o que pode exigir habilidades especiais da equipe médica) e eu não sabia se ‘bancaria’ um parto normal nessa situação. Contei para o Teco e decidi que faria exercícios, acupuntura, moxabustão, VCE (Versão Cefálica Externa, manobra realizada após a 37ª semana da gravidez para tentar virar o bebê). Ele disse que se nada desse certo, que nosso filho nascesse de bunda, de pé, do jeito que fosse, e que correria tudo bem. Me senti muito mais segura depois dessa conversa.” Carol Moreira conta que o paizão que existia no marido desabrochou, de fato, nas semanas que procederam ao nascimento de Caio. “Tive um pai bastante ausente e por isso não sabia bem como enxergar o papel do Ricardo. Mas ele se mostrou o pai maravilhoso que é hoje: sempre disposto a conversar sobre as decisões que envolvem o Caio e sempre assumindo a responsabilidade dos cuidados com o bebê.” Ricardo concorda, pois viveu plenamente a fase do puerpério: “Com exceção de amamentar, eu fazia tudo com meu filho. Pegava no colo, limpava a bunda, fiquei rapidamente responsável pelos banhos que tomávamos juntos, com uma técnica que aprendi do pediatra neonatal, passeava no sling, tudo. Por isso, afirmo que o parto deve definitivamente ser escolhido pela mulher, sempre com o suporte do marido, e que a criação com vínculo é o maior investimento que podemos fazer nessas pequenas criaturas, que viram nossa vida de dentro pra fora.” E, para as famílias gestantes que desejam reforçar seus vínculos, existem cada vez mais opções de atividades e espaços onde pais, mães e filhos se encontram trocar experiências e obter informações.

Confira algumas das atividades que a Casita oferece, programe-se e boa convivência!

- Gestando: Troca de ideias e informações baseadas em evidências científicas, mediado por profissionais humanizados. Encontro gratuito.

- Yoga para gestantes e casais grávidos: Em qualquer fase da gravidez

- Encontro Pós-Parto: Convivência, informação e acolhimento para quem acabou de receber um novo membro na família. Em edições para mães, pais ou mistas.

- Musicalização: Desperta o gosto pela música e favorece o vínculo entre o bebê e os pais, que o acompanham na atividade. Para crianças de até três anos.