MATERNIDADE


“Quando estamos grávidas, passamos a gravidez toda pensando em como será o parto e o nascimento do nosso bebê. Se ele vai nascer bem, como será seu rostinho, como será pega-lo nos braços… nossa cabeça viaja. Por essas e outras questões, muitas vezes o pós parto acaba ficando de lado. Não pensamos como será este momento, e já que a mídia sempre mostra tons pastéis e bonitos, a gente fica sonhando com aquele momento romântico em que tudo será repleto de amor.

Na verdade, repleto de amor até é, e ainda bem, porque se não houvesse amor, a gente não conseguiria passar por este momento de forma “menos louca”. O amor ajuda a abrandar muitas das coisas que aparecem com o pós parto. Porque quando nasce nosso filho, nasce também a mãe. Quando é o primeiro filho, todo mundo da família muda de “status”: quem era mãe vira avó, quem era filha vira mãe, quem era irmã vira tia e assim vai. Quanta mudança, hein? E essa mudança não é simples e tranquila. Ela muitas vezes pode amedrontar. Aliás eu tenho certeza que não ha uma só mãe que não tenha tido medo com o nascimento do seu primeiro filho. A transformação interna é grande e intensa demais, e na minha opinião é pior a gente “jogar pra debaixo do tapete”. Acho que é hora de olharmos sim pra dentro de nós e encararmos de frente nossas sombras e, porque não, luzes, escondidas.

Mas para que encaremos este momento de forma “menos louca” como eu disse acima, há algo que ajuda demais, que são os encontros de pós parto. O que são encontros de pós parto? são reuniões de mães com seus bebês, dividindo os medos e alegrias deste momento. Porque não adianta mais ninguém falar, só quem passa por isso neste momento sabe como é, e por isso mesmo, sabe que não se deve julgar o outro, pois é um momento difícil para todas e cada uma tem um motivo de estar onde está. Não é momento para julgamento, e sim para troca, ouvir a outra, muitas vezes sem falar nada – aliás muitas vezes o melhor amigo é aquele que não fala nada e simplesmente ouve. Coisa rara essa, né? A gente tem muito o que aprender sobre relacionamentos. E nos grupos a gente aprende a se relacionar também.

Eu particularmente, devo minha mínima sanidade mental neste momento ao grupo de pós parto primeiramente no Espaço Nascente com a Cris Toledano, e depois, e por mais tempo, na Casita com a Carla Capuano. Não é exagero, não é mesmo! Não sei o que seria de mim sem esses encontros. Minha gravidez e pós parto foram momento MUITO solitários, cidade desconhecida, amigos longe, familiares longe, marido trabalhando fora o dia todo. Nunca me esqueço, no dia em que Elis completou 2 semanas, meu marido saiu pela porta e eu olhava para a porta e para a Elis, e pensava: “tá, e o que eu faço agora????”, um desespero inexplicável de não saber o que fazer. Só de me lembrar, meu fôlego vai embora. Quando ela completou 3 meses eu não estava mais aguentando e peguei ônibus e metrô até São Paulo e fui ao encontro no espaço nascente, e lá fui tão bem recebida, e tão “não julgada”, que me lembro, no primeiro dia eu não queria ir embora, por mim dormia lá mesmo. rs

Mas as reuniões eram realmente longe e eu torcia para que logo aparecesse algo no ABC. Até que fui ao encontro de final de ano no Espaço Nascente, e lá conheci a Carla Capuano, que é de Santo André e pensava naquela época em montar um grupo no ABC. Eu dei a maior força mesmo, mas primeiramente foi bem um ato egoísta, rs, porque eu não aguentava mais ficar sozinha em casa, chorando sozinha em casa, se fosse para chorar (e sorrir!) que fosse com um grupo passando pelo mesmo que eu.

Foi então que passei a ir aos encontros na Casita, no inicio com muita dificuldade ainda porque eu não sabia andar pela cidade direito, mais perdida do que cachorro em dia de mudança rs, mas fui. E lá, aos poucos, senti minha alma sendo redefinida, redesenhada, energizada. A cada depoimento das mães eu me sentia mais parte de um todo e isso foi me confortando. Mesmo as historias sendo diferentes, muitas delas têm semelhanças interessantes que podem nos ajudar a encontrar respostas para as nossas perguntas, basta estar aberta ao novo e se olhar.

Só tenho a agradecer porque a vida colocou estes grupos no meu caminho, não sei, mesmo, o que seria de mim sem tudo isso. Li no livro Mulheres que Correm com os Lobos, que o choro energiza e acalma, é como se, antes de chorarmos, estivéssemos em um barco no meio do deserto. Quando começamos a chorar, o barco vai navegando no mar das lágrimas, e nos leva a um lugar mais tranquilo e um pouco mais afastado da tempestade. Assim, conseguimos ver nossos problemas de forma mais clara e encararmos as situações de forma mais tranquila. E chorar junto, sorrir junto, tudo isso fez muita diferença para mim, e ainda faz, e acho que sempre fará.

Agradeço a cada materna que conheci neste período, mesmo online apenas, cada uma de vocês com certeza me ajudou a chegar mais perto de mim. Me encontrar, me redescobrir, e esse processo não acaba nunca.

Gratidão, maternas. Gratidão!
Por Carol Valente