Os proibidões da introdução alimentar


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Ovo? Leite? Mel? Quem são os vilões (e os mocinhos) na alimentação de bebês de até um ano

*Por Mari Nakata, com colaboração da nutricionista Carla Caratin

 Durante o primeiro ano de vida, o período da introdução alimentar, quando o bebê deixa de receber exclusivamente ou leite da mãe (ou, em casos especiais, a fórmula artificial) e passa a experimentar novos alimentos é uma das fases que desperta mais dúvidas e polêmicas – e chega a ser motivo de discórdia – entre mães, pais, familiares e amigos.

Os órgãos de saúde são unânimes ao recomendar que a oferta de frutas e legumes deve ser iniciada, preferencialmente, a partir dos seis meses de idade, e é comum que o período considerado como adaptação persista até o primeiro aniversário da criança. No entanto, as informações adicionais são tantas e tão controversas que fica difícil saber em quais confiar. Iniciar com frutas ou com suco? Pode dar morango? Precisa dar outro tipo de leite que não o materno?

Para auxiliar nessa etapa de transição preparamos, com a ajuda da nutricionista Carla Caratin – responsável pelos cursos Bebê Tem Fome de Quê? e Meu Lanchinho, na Casita, uma listinha com os alimentos mais controversos do cardápio dos pequenos entre os seis meses e um ano de vida.

“A alimentação tem muito a ver com os hábitos da família, e é importante que o bebê seja inserido nesse contexto desde cedo recebendo, na medida do possível, refeições preparadas com os mesmos ingredientes utilizados para os outros habitantes da casa”, acredita Carla.

E nem mesmo as frutas e legumes considerados exóticos precisam ficar de fora. Afinal, o que é considerado “diferente” em uma região é absolutamente comum em outra. Basta inserir uma novidade de cada vez, sempre aguardando por um intervalo de dois ou três dias até apresentar outro alimento, para certificar-se de que não houve nenhuma reação desagradável.

Esperamos que nosso pequeno guia seja uma ferramenta para auxiliar na criação dos bons hábitos alimentares dos bebês e, por que não, promover a cultura de alimentos mais saudáveis para toda a família.

 

Açúcar – Evitar

Além de prejudicar a absorção dos nutrientes presentes nos outros alimentos e cair rapidamente na corrente sanguínea, causando picos na produção de insulina (esses picos sobrecarregam o pâncreas e estão associados, em longo prazo, ao surgimento de diabetes do tipo 2) a versão refinada do açúcar fornece apenas calorias vazias, ou seja, sem nenhum valor nutricional e é um convite aos maus hábitos alimentares e, consequentemente, à obesidade. Por mascarar o sabor dos alimentos, prejudica o desenvolvimento do paladar. Por isso, evite apresentar o açúcar ao bebê pelo tempo que for possível e estimule-o a experimentar os sabores naturais das frutas que, aliás, podem fornecer todo o açúcar necessário ao nosso organismo.

 

Adoçante artificial – Proibido!

Traz todas as desvantagens do açúcar, com exceção das calorias, e tem o adicional de ser altamente processado e rico em substâncias químicas. Melhor evitar adoçar os alimentos com qualquer substância durante os primeiros dois anos de vida e, apenas nos casos de crianças diabéticas, utilizar adoçantes com total parcimônia apenas após essa idade.

 

Amendoim – Proibido!

Altamente alergênico, tem potencial para causar urticária e anafilaxia, uma reação alérgica grave que pode levar ao fechamento da glote e à impossibilidade de respirar. É um ambiente propício para a proliferação de fungos perigosos, responsáveis por casos de intoxicação aguda.

 

Café – Proibido!

Assim como outras substâncias ricas em cafeína, como refrigerantes à base de cola, chocolates e alguns tipos de chás, é altamente estimulante e pode causar insônia, falta de atenção, nervosismo, aumento da pressão arterial e da frequência cardíaca e afetar o estômago. Prejudica a absorção de cálcio, ferro e vitamina C.

 

Carne de porco – Consumir com cuidado

Apesar da má fama da carne suína, muitas vezes considerada “gorda”, alguns cortes como lombo e filé mignon suíno podem ser menos gordurosos e calóricos do que a carne de frango. Deve-se apenas ter o cuidado de cozinhá-la bem, como a carne de qualquer outro animal, para evitar riscos de contaminação.

 

Carnes embutidas e processadas (lingüiça, salsicha, empanados de frango, mortadela, presunto etc.) – Evitar

Com alto teor de sódio, gordura, corantes, conservantes e aromatizantes, esses produtos ultraprocessados conservam pouquíssimas de suas características nutricionais originais e devem ser consumidos com moderação até mesmo pelos adultos. Mantê-los longe dos bebês enquanto for possível, além de evitar a sobrecarga das substâncias citadas, ajuda na formação de hábitos saudáveis e de um paladar mais apurado.

 

Cítricos (laranja, limão e mexerica) – Consumir com cuidado

Fontes importantes de vitamina C, que auxiliam a absorção de ferro pelo organismo, os cítricos têm potencial alergênico superior ao de outras frutas. Por isso, é necessário ficar atento a sintomas crônicos como enxaqueca, rinite, sinusite, infecções urinárias, cistite, problemas renais, cálculos, labirintite, gastrite e problemas dermatológicos, que podem indicar alergia. Nesses casos, o ideal é substituí-los por outros alimentos também ricos em vitamina C, como maracujá, acerola, goiaba, caju, folhas verdes etc.

 

Industrializados – Evitar

Pense nos ingredientes que você utilizaria se fosse fazer um biscoito amanteigado em casa: manteiga, farinha, ovos, açúcar… no caso de um biscoito industrializado a lista é muito mais extensa, repleta de nomes desconhecidos e de siglas misteriosas que podem significar vários tipos de açúcares, gorduras, conservantes, corantes e aromatizantes artificiais. Além da enorme possibilidade de um desses ingredientes causar alergias ou problemas gastrintestinais, esses alimentos costumam ser pobres em nutrientes que, quando existem, foram adicionados artificialmente. Nesse caso, melhor manter distância, concorda?

 

Leite de vaca e seus derivados – Evitar

Embora seja amplamente utilizado em fórmulas infantis e comumente associado a uma dieta saudável, o leite de vaca é altamente alergênico, prejudica a absorção de nutrientes importantes como o ferro, sobrecarrega os rins (é rico em sódio, potássio e cloretos), está relacionado ao aumento da produção de muco e, como se não bastasse, tem uma composição que dificulta a absorção do cálcio pelos seres humanos. Portanto, ao contrário do que afirmam algumas vertentes da medicina e da nutrição, é um item totalmente dispensável na dieta de bebês, crianças e adultos. Mesmo bebês menores de um ano que passam o dia longe da mãe podem passar sem o leite de vaca e as fórmulas artificiais, contanto que sejam amamentados pela manhã e à noite e a alimentação complementar esteja sendo bem aceita durante o dia.

 

Mel – Proibido!

O mel pode conter bactérias causadoras do botulismo intestinal, um tipo de intoxicação que afeta o sistema nervoso. Conforme o organismo do bebê amadurece, ele passa a ser capaz de eliminar essa bactéria sem dificuldade. Portanto, melhor passar longe dele durante o primeiro ano de vida. E mesmo a partir dessa idade, vale lembrar que evitar adoçar os alimentos de crianças pequenas – seja com mel, açúcar ou qualquer outra substância – é uma ótima medida para criar bons hábitos alimentares.

 

Morango – Permitido

Por ser uma fruta delicada, cultivada perto do solo, o morango proveniente da agricultura tradicional é um dos campeões no uso de agrotóxicos, esses sim grandes vilões da alimentação. Mas se houver à disposição morangos orgânicos, pode oferecer sem medo!

 

Oleaginosas (nozes e castanhas em geral) – Proibido!

Assim como o amendoim, as nozes e castanhas tem alto potencial alergênico e podem causar desde urticárias até choque anafilático, com risco de dificuldade respiratória. Por isso, não devem ser oferecidas ao bebê, apesar de serem ótima fonte de proteínas e gorduras boas.

 

Ovo – Permitido

Antigo vilão da alimentação saudável, o ovo foi “absolvido” recentemente e liberado para ser oferecido durante o primeiro ano de vida do bebê. O único cuidado deve ser o de oferecer clara e gema separadamente, para minimizar o risco de surgimento de alergias e, caso haja alguma reação, identificar mais facilmente qual foi a causa.

 

Peixe – Permitido

O grande problema do peixe está em seu manejo, ou seja, a forma como é tratado do momento da pesca até chegar à mesa. Trata-se de uma excelente fonte de proteínas, minerais, vitaminas e Ômega 3 e pode ser consumido sem receio, contanto que tenha boa procedência.

 

Sal – Evitar

Além do alto teor de sódio, o sal mascara o sabor dos alimentos, prejudicando a formação do paladar. Muito mais interessante permitir que o bebê experimente o adocicado, o azedinho e até o amarguinho naturais dos legumes e dos cereais antes de apresentá-lo a esse tempero.

 

Soja – Consumir com cuidado

Muito usada para substituir o leite de vaca, principalmente nas dietas de intolerantes e veganos, a soja é tão alergênica quanto, apesar da fama de saudável. Como se não bastasse, o grão é utilizado em larga escala no preparo de alimentos industrializados, ou seja, muitas vezes estamos consumindo soja sem nem saber. Quando preparada em forma de tofu, shoyu ou missô, tem seu potencial alergênico reduzido e pode ser consumida com moderação.

 

Suco de frutas – Consumir com cuidado

Outro alimento com fama de saudável, comumente receitado pelos pediatras para iniciar a introdução alimentar, mas que não traz tantos benefícios quanto se imagina. A fruta, quando transformada em suco, perde rapidamente suas vitaminas, resultando em uma bebida doce com baixo teor de fibras e nutrientes. Pode ser oferecido no copo, na quantidade de até 100 ml por dia e de preferência sem adição de água, para concentrar os nutrientes, mas não funciona como refeição.

 

Trigo – Consumir com cuidado

Exceto nos casos de doença celíaca, quando não deve ser consumido de maneira nenhuma, o trigo pode ser oferecido a partir do sexto mês de vida, de preferência na forma de farinhas integrais e com cuidado para evitar o exagero, já que o cereal está presente em massas, pães, biscoitos, bolos etc. No caso de histórico familiar de alergias ou intolerância ao glúten, o ideal é deixar a introdução do ingrediente para depois do primeiro ano de vida.