Parto normal: Prepare-se para não virar estatística


*Por Mari Nakata
**Consultoria: Marla Stern

Atire a primeira pedra quem nunca ouviu a história da gestante que desejava um parto normal e, faltando poucas semanas para a data prevista para o nascimento do bebê, foi informada pelo médico obstetra de que seria mais seguro agendar uma cesárea devido a alguma complicação. Ou que em pleno trabalho de parto foi encaminhada para o centro cirúrgico com justificativas como falta de dilatação ou frequência cardíaca fetal não tranquilizadora.

Pois bem. A pesquisa Nascer no Brasil, divulgada no final de maio pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) demonstra, em números, o que já era sabido por qualquer pessoa que tenha se dado ao trabalho de pesquisar, ainda que superficialmente, a situação obstétrica das mulheres brasileiras: Na rede suplementar de saúde, ou seja, hospitais privados, 70% das grávidas começam a gestação desejando parto normal, mas apenas 10% conseguem atingir esse objetivo. Dessas cirurgias, 92% acontecem antes da mãe entrar em trabalho de parto, um indício claro de que a criança pode não estar pronta para deixar o útero – o que resulta, muitas vezes, em bebês prematuros e com dificuldades respiratórias.

A ginecologista e obstetra Ana Thais Vargas, da Casita, aponta o parto normal (conheça à frente as diferenças entre parto normal e parto normal humanizado) como vantajoso, se comparado à cesárea. “O nascimento é um processo fisiológico e, como tal, só traz vantagens para mãe e bebê. As intervenções durante o trabalho de parto só devem ser realizadas com o intuito de corrigir a fisiologia, caso ela saia do curso esperado. Já a cesariana é uma cirurgia e possui todos os riscos relacionados a um procedimento desse tipo, como o risco anestésico, de sangramento, infecção e até de histerectomia (retirada do útero). Por isso, só deve ser feita quando o perigo das complicações é superado pelo risco de não fazê-la, por indicação fetal ou materna.”

Entretanto, diante de estatísticas tão negativas, a gestante que deseja um parto normal e respeitoso precisa estar informada, segura e certa de que seu corpo é perfeito e ideal para parir. Para confirmar essa informação tão óbvia, a OMS (Organização Mundial da Saúde) recomenda que o número de cesarianas não ultrapasse 15% do total de nascimentos. Ou seja: uma parcela que representa de 80 a 90% das mulheres é perfeitamente capaz de gerar e parir seus filhos.

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Viviane Aleixo, grávida de Davi. Foto de “Top Produções”

Viviane Aleixo, mãe de Davi, nascido em maio, é um exemplo do poder do corpo feminino. Com hipertensão arterial e bebê em apresentação pélvica (sentado) até a 30ª semana, conseguiu contornar as dificuldades e foi aceita na Casa Ângela, casa de parto onde são admitidas apenas gestantes consideradas de baixo risco. “Mesmo com os contratempos e a insegurança, tão comum durante a gravidez, eu sabia que tinha o principal: a vontade de parir, contrariando a todos os que esperavam, consciente ou inconscientemente, pela minha cesárea. E assim foi. Davi Vinicius chegou em noite de eclipse! Precisei renascer para depois parir minha bênção.”

Listamos alguns passos importantes para a gestante que busca um parto normal humanizado. Não há ordem certa para percorrê-los e nunca é tarde para mudar os planos, caso perceba que está sendo direcionada para uma cesariana desnecessária e indesejada. Prepare-se e, como diziam no tempo de nossas avós, tenha uma boa hora!

Participe de grupos de apoio ao parto

Estar em contato com mães, gestantes e profissionais que desejam e apoiam o protagonismo da mulher no parto é importante para trocar experiências e absorver informações.

Carla Capuano, psicóloga e idealizadora da Casita, fala desse apoio: “Promovemos, em nosso espaço, encontros e workshops como o Gestando e o curso de preparação para o parto, nos quais a futura mãe passa a entender o funcionamento do corpo durante a gravidez e o momento de dar à luz, fatores primordiais para fortalecer a confiança da gestante na própria capacidade de parir. Além do teor informativo, a convivência com profissionais e com outras mulheres que têm o mesmo objetivo é uma fonte praticamente inesgotável de conhecimento”.

Viviane concorda: “Participar dos encontros na Casita e trocar ideias, sentimentos e sensações com outros casais foi muito importante. Ouvir o depoimento de uma mãe que, com total apoio do esposo, teve seu filho em casa foi impactante, pois vi que não só a fecundação, mas todo o parto, pertence ao casal”.

Saiba as diferenças entre parto normal e parto normal humanizado

Embora ambos ocorram por via vaginal, o conhecimento da equipe de apoio é que fará a diferença no momento do nascimento. Em um parto normal convencional, realizado em hospital por médico de formação tradicional, mulher e bebê costumam sofrer intervenções de rotina que são, muitas vezes, desnecessárias, como aplicação de soro com ocitocina (hormônio responsável, entre outras coisas, por intensificar as contrações, o que aumenta a dor e a incidência de lacerações), episiotomia (corte no períneo feito rotineiramente e cuja eficácia vem sendo desmentida, desde os anos de 1980, por estudos baseados em evidências), ruptura artificial da bolsa (além de totalmente desnecessária, pode intensificar a dor das contrações, aumenta a chance de contato do bebê com microorganismos causadores de doenças e – maior risco – pode ocasionar o prolapso do cordão, ou seja, o cordão umbilical precede o bebê no canal do parto, sendo pressionado e deixando-o sem oxigênio). O recém nascido costuma ser levado para avaliação antes mesmo de ter contato com a mãe e passa por procedimentos como aspiração desnecessária das vias aéreas (sem anestesia) e aplicação do colírio de nitrato de prata (altamente irritante, arde muito, costuma causar conjuntivite química e é necessário APENAS se a mãe tiver gonorreia).

Em um atendimento humanizado, a fisiologia da gestação e do parto é respeitada ao máximo, dando a chance ao corpo da mulher de assumir o protagonismo desse momento único. A obstetra Ana Thais explica: “durante o trabalho de parto é necessário respeitar o tempo e a individualidade de cada mulher, do recém-nascido e suas necessidades. Tudo isso com base e respaldo das mais recentes evidências científicas”. Oferecer opções não farmacológicas para aliviar a dor, possibilitar a movimentação da mulher de maneira que ela se sinta mais confortável e nunca, em hipótese alguma, realizar procedimentos agressivos ou sem a autorização da gestante são algumas das premissas para que um parto seja considerado humanizado. E ao contrário do que muitos imaginam, é possível, sim, fazer uso de anestésicos sem que eles interfiram negativamente no nascimento do bebê.

Elabore um plano de parto

Recomendado há décadas pela OMS, mas raramente indicado pelas equipes médicas que realizam o pré-natal e muitas vezes até desconhecido por elas, o plano de parto funciona como um roteiro de como a gestante deseja o nascimento de seu filho. E tão ou mais importante que ajudar a planejar esse momento, funciona como guia para reflexão e informação a respeito da possibilidade de aceitar ou não determinadas intervenções, movimentar-se e alimentar-se durante o trabalho de parto, se sentir vontade e receber o bebê nos braços logo após o nascimento, por exemplo.

A doula e instrutora de yoga Amanda Mesquita explica como proceder: “O plano deve ser elaborado pela parturiente e seu acompanhante, e nesse processo a doula tem o importante papel de orientar a respeito dos procedimentos e das possibilidades. A partir daí, deve ser discutido com obstetra ou parteira, e também com o neonatologista.”

Para aumentar a efetividade do plano, vale protocolá-lo na maternidade ou na casa de parto, como garantia adicional de que as condutas estejam de acordo com o desejo da gestante, e entregar uma cópia para cada um dos profissionais envolvidos no parto. O site Amigas do Parto disponibiliza um modelo para elaboração do plano.

Escolha o local

Maternidade, casa de parto e a própria residência da família são algumas das opções para a chegada do bebê. No hospital o parto deve ser, obrigatoriamente, assistido por um obstetra e um pediatra neonatologista, sejam eles plantonistas da instituição ou escolhidos pela gestante.

Nas casas de parto, que podem ser definidas como uma alternativa intermediária entre a maternidade e a casa da gestante, a intenção é prestar um atendimento humanizado e respeitoso, sem intervenções médicas. Nesses locais, enfermeiras obstetras e doulas atendem mulheres com gestações consideradas de baixo risco, exclusivamente para partos normais. Vale lembrar que para essa opção é necessário contar com um “plano B” hospitalar, já que fatores como apresentação pélvica do bebê, nascimento prematuro e presença de mecônio no líquido amniótico podem dificultar ou até impedir a admissão da gestante.

Já na própria casa a mulher pode ter à disposição, de acordo com sua preferência, o apoio de profissionais como obstetra, parteira, doula e pediatra neonatologista, além da participação da família, se for sua vontade. Nesse caso o ambiente é preparado pela família e pela equipe conforme a necessidade, com instrumentos de conforto e equipamento de apoio, como oxigênio, medicamentos para contenção de hemorragia, material para clampeamento do cordão, sutura e, para casos extremos, para reanimação neonatal. Entretanto, a experiência dos profissionais costuma tornar possível antecipar qualquer complicação, minimizando a necessidade de intervenções radicais.

Viviane, que optou pela casa de parto, não se arrepende: “Posso dizer que a Casa Ângela é o nosso lugar. Meu plano de parto foi 100% respeitado, assim como minha dieta. O tratamento ímpar ao meu acompanhante, o quarto onde ficamos por 48h… até café da manhã na boca, porque estava fraca!”

Conheça as reais indicações (e as não-indicações) para a cesárea

Muitos obstetras, na intenção de ganhar tempo ou por pura desinformação, indicam o nascimento por via cirúrgica com base em informações desatualizadas, sem respaldo científico ou até bizarras. Circular de cordão umbilical, mecônio no líquido amniótico, cesárea em gestação anterior, bacia da mãe muito estreita, bebê que não encaixa antes do trabalho de parto, falta de dilatação e sofrimento fetal estão entre as falsas justificativas mais comuns para a cesariana. E mesmo em situações em que a cirurgia pode ser necessária, como apresentação pélvica (bebê “sentado”) e gestante com HIV positivo há medidas que podem ser tomadas, caso a caso, para possibilitar o parto normal. Melania Amorim, obstetra pós-doutora com um vasto currículo em saúde materno-infantil, elenca em seu blog 150 falsas justificativas para a cesárea. Leia, releia e, caso seu médico tente usar alguma delas para agendar a sua, corra sem olhar para trás!

Saiba reconhecer um médico cesarista

Não se iluda. É possível que o médico que te atende a vida toda jure que sim, topa “tentar” parto normal, quando no fundo está doidinho por uma cesárea rápida e, de preferência, com hora marcada. Por isso, no momento da escolha é importante escutar sua intuição e ter com ele uma conversa franca. A doula Danielle Ichikura sugere alguns itens que podem ser abordados: “Apresentar seu plano de parto, questionar as taxas de cesáreas e parto normal do profissional, perguntar até quantas semanas de gestação ele aguarda para induzir o trabalho de parto, se concorda com parto em outras posições que não com a mulher deitada na maca, se usa episiotomia e soro com ocitocina como procedimentos padrão são questões cujas respostas podem sinalizar a disposição ou não do obstetra a encaminhar a gestante para uma cesárea sem indicações reais”.

No site Morada Interior há um texto bem humorado e muito completo, com essas e outras indagações que podem indicar a conduta do médico. E caso você perceba que o obstetra que vem acompanhando seu pré-natal é um cesarista de mão cheia, respire fundo e acalme-se. Nunca é tarde para trocar de médico e traçar um novo plano.


Prepare seu corpo

Além de fazerem parte de uma rotina saudável, exercícios físicos como yoga, dança do ventre e outras atividades durante a gestação auxiliam a reencontrar o equilíbrio, fortalecer a musculatura, melhorar a flexibilidade, amenizar eventuais desconfortos e desenvolver a consciência corporal. No trabalho de parto, os movimentos e técnicas respiratórias são aliados valiosos para alívio da dor.

Pâmella Souza, doula, bailarina de dança do ventre e educadora perinatal, explica: “Todos os movimentos de quadril, tronco e peito da dança têm como alvo os músculos do abdômen e do assoalho pélvico envolvidos no parto. Ela também ajuda a mulher a conectar mente, corpo e espírito e, assim como yoga ou tai chi, promove sintonia com o corpo que está em constante transformação e com o crescimento do bebê.”

Viviane conta sua experiência: “Quando, em trabalho de parto ativo, agachei e consegui, entre uma contração e outra, repetir o movimento que faz o corpo todo tremer (“os shimmies”, diz Pâmella), senti que finalmente relaxei e minha bacia se abriu.”