RELATO DO NASCIMENTO DA ALICE


Bom, o meu relato de parto da Alice, acredito piamente que começa há três anos atrás na gestação da Giovanna, minha primeira filha, que trouxe instantaneamente o desejo de um parto normal, pra mim era o mais cabível, o fisiológico.

Os meses iam passando e eu me informando sobre o assunto de parto, humanização e todo esse universo maravilhoso da maternidade ativa e consciente. Giovanna nasceu, em um parto normal hospitalar, parto esse que tinha tudo pra ter sido natural. Não senti o trabalho de parto, é difícil de acreditar, mas não percebi, fui a consulta de rotina com 38s e 1 dia e já estava com 6cm de dilatação e contrações presentes segundo o exame do cardiotoco, mas eu nada sentia… me encaminhei pra maternidade e dentro de duas horas ela nasceu, com uso de kristeller, fórceps, ocitocina e episiotomia; tudo isso por ter dilatado os 10cm e não ter a tal vontade de empurrar ou sentir os puxos, enfim, na época só por ter conseguido o parto normal hospitalar com plantonista já me senti vitoriosa, me senti a mulher mais feliz do mundo!

Um ano e meio depois do nascimento da nossa Gigi, fomos presenteados com a chegada de mais um anjo, nossa Alice, nossa caçulinha estava a caminho! Na minha concepção de vida, essas duas já são companheiras há muito tempo, era só uma questão de ‘’juntar’’ as duas novamente em vida.

No primeiro momento pós exame de gravidez fui tomada por um medo enorme do parto, isso mesmo, medo do parto! Como assim, já havia passado por um parto normal que me deixou marcas ruins, porém ele me fazia feliz mesmo assim, afinal, fui muito abençoada em um parto rápido para uma primigesta, sem dor alguma, um verdadeiro milagre não?! É, pode ser, a mão do homem é que desviou esse milagre da natureza e dessa vez eu não queria desvios ou intervenções desnecessárias, a vontade do parto natural veio com tudo, e o medo de não conseguir também, já que estamos ai nas mão do sistema… era isso, eu precisa burlar o sistema de parto no Brasil para parir.

Mais uma vez na internet encontrei apoio, consolo, informação, colo mesmo que virtual e ganhei ainda mais coragem e garra. O que todos nos sugeriam era, parto domiciliar, para nossas condições financeiras no momento estava fora de cogitação essa opção, a segunda alternativa era a casa de parto, após pesquisas e mais pesquisas, fomos conhecer a  casa de parto de Sapopemba, gostamos muito de lá, ambiente e equipe acolhedora, mas no fundo sentia que ali não seria o nosso lugar, ainda me sentia deslocada.

As 36 semanas chegam, sentia muita pressão na bacia, sentia a cabeçinha da minha filha raspando e batendo o tempo todo, como se forçasse a saída, comentei na minha consulta com a GO já que as consulta na CP ainda não haviam se iniciado, após exame de toque perante o meu relato em consultório, foi constatado uma dilatação de 4cm, mas nada de TP, somente os pródomos estavam me fazendo dilatar. As 37s começaram as consultas na CPS, me encantei tanto que abandonei a GO, fui em uma, duas, três, na terceira consulta na CPS, com 39s, a enfermeira obstetra me alertou da data, o que muito me chocou, porque afinal, estava de 39s e uma gravidez saudável pode ir até 42s, porém por excesso de zelo, protocolo ou coisa assim, algumas enfermeiras de lá já encaminham ao hospital a partir de 40s, para não me assolar tal procedimento foi me oferecido o uso do ‘’sorinho’’ já que no exame de toque nesse dia eu estava com 6cm, mas ainda em pródomos, ou seja, o TP prometia ser rápido mais uma vez e quem sabe mais uma vez sem perceber?! Amei essa ideia e fui pra casa decidida a esperar, pra mim, um doa pontos altos do processo de parto é a espera, pelo dia no qual o bebê se sente pronto a nascer!

Com as 40 semanas chegando, voltei a minha GO, já que iria ser encaminhada para o hospital faria o parto com ela novamente, porém, não aceitaria intervenções, dessa vez seria muito mais dona do meu parto e do meu corpo. Ficou acertado com a GO que esperaríamos até as 42s se eu fosse dia sim, dia não para monitorar a bebê, aceitei, mas no fundo sentia que o parto estava próximo!

Olhava no calendário lunar a virada de lua do dia 25 de fevereiro, sentia que era nossa lua, lua cheia, lua de São Jorge o qual sou devota. Chegou dia 23, um sábado, lembro de andar o dia todo com a Giovanna, passeamos, brincamos muito, comi tudo que eu tinha vontade, recebi uma amiga de infância, me desvirtuei do assunto parto e curti demais o dia. Chegou domingo dia 24, resolvi dar uma forcinha pra natureza, levantei cedo, peguei o marido e a filhota e fomos ao museu do Ipiranga, (uma espécie de rito de parto pra mim, já que na primeira gestação andei o dia todo lá e pari no dia seguinte hehe) andamos bastante, em casa relaxei em um escalda pés, fiquei uma hora embaixo da água do chuveiro bem quentinha, me cuidei, fiz as unhas, depilação, cabelo e chequei as malas, tudo ok, à noite fui andar no shopping e jantar, já sentindo umas fisgadas no quadril, uma pressão forte na pélvis, e eu por dentro serena e aberta pra receber a minha bebê.

Fui dormir cansada e com umas dores aqui outras ali. Dormi a noite toda, lembro-me de ao me virar na cama sentir uma dores, mas nada forte, nada que me tirasse o sono. Até às 4h da manhã quando fui acordada por uma contração fortíssima, levantei achando que era cólica intestinal, cheguei ao banheiro cambaleando de sono e foi ai que me toquei, chegou a hora!! Voltei pra cama a fim de contar as contrações e relaxar, chamei o marido e contamos, 3 em 3 minutos, levantei e fui pro chuveiro, não deu pra ficar muito, a coisa apertou, liguei pra GO as 5h da manhã avisando que estava caminho do hospital.

Fomos o caminho todo cantando, brincando, parando o carro entre uma contração e outra, eu alisando a barriga e chorando, de saudades dela e de felicidade por nossa hora tão abençoada ter chegado!
Dei entrada no hospital as 5:50h, a GO já me esperava na recepção, durante todo o tempo em quem entrei ali ela me surpreendeu a cada ato, cada palavra, cada olhar, se mostrou humana, me tratou com carinho, respeito, coisa que já vinha fazendo durante todo o pré natal, me deixou livre mais uma vez.  Me examinou e pra nossa alegria, 10cm e bebê descendo! Chamou meu marido que tentava fazer a minha ficha e disse ‘’ Vem Rafa, Alice tá nascendo, já vi que tem cabelinhos!’’ nessa hora me tornou tão familiar a forma como ela nos tratou que eu relaxei de vez, 10cm, bebê já a ponto de nascer tamanha minha vontade de empurar, que eu senti ali que tudo seria diferente do primeiro parto.

Fomos direto pra sala de parto, meu marido ao meu lado, nós três burlando protocolos, eu sem ficha, sem retirar meus pertences, sem ficar sozinha no pré parto, sem exames em mãos e nisso a equipe de enfermagem pirando com uma mulher entrando ali parindo e… quebrando protocolos hehe.

As contrações vinham a cada um minuto, eu parava a cada uma e respirava, deitei na maca e já empurrei ao primeiro puxo,empurrei e senti a cabeça saindo, a GO desfez uma circular que ja haviamos visto na ultra de 36s que foi a ultima, e o restante do corpinho escorregou, so sentia muita pressão e euforia. Foi prazeroso demais, sem medos, totalmente entregue a natureza fisiologica do meu corpo e da bebê. Tive uma laceração natural bem pequena que precisou de sutura e mais nada! Bom, assim que nasceu as 6:25h, uma enfermeira, a pediatra e a anestesista do plantão vieram ate mim emocionadas e disseram que foi o parto mais lindo que elas ja viram, que ficaram todas arrepiadas e sentiram a sala sendo inundada por uma força inesplicavel a hora que eu comecei a rir e chamar a Alice, que elas nunca esquecerão desse dia, que foi uma cena pra começar a semana feliz. A neotalogista me deu os parabéns e disse que feliz era minha filha que foi recebida por uma mãe sorrindo e muito feliz no expulsivo. Ou seja nunca haviam presenciado um parto assim, natural, prazeroso.

Enfim não foi na casa de parto, mas foi como deveria ser, certamente a experiência mais plena da minha vida, jamais vou esquecer-me do sentimento pelo qual fui invadida, é inexplicável parir, da entrada ao hospital até ela estar em meus braços foram só 35 minutos, mais perfeito impossível!
Falo que Alice é minha redenção, minha glória como mulher e mãe, me superei, desde medos, sombras internas, a concepções, aprendi a me bancar, a me ouvir no mais intimo e seguir firme, sempre confiante.

Tenho muito a agradecer a Deus pela oportunidade de ser mãe, ao meu marido, por me apoiar sempre, e a pessoas maravilhosas que me acompanharam durante a gestação e que fizeram a diferença no resultado final de tudo!rs

Juliana Lana Beraldo, 25 anos, casada com Rafael, mãe da Giovanna e da Alice.